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14 de mar de 2013

Redescobrindo a pólvora


De uns anos para cá tomei uma decisão muito sábia. Resolvi dar uma olhadinha para entender por quê, afinal de contas, alguns artistas do passado foram rotulados como "demais", "rei", "gênio", "voz de anjo", "talento único", "maravilhoso", "inesquecível". Eu ouvia nomes e mais nomes mas nunca acreditava que eles fossem toda essa Coca-Cola. Devia ser saudosismo barato, conversa mole, invenção de quem não tem o que fazer, de velhos amantes do passado. Então, como disse, resolvi dar uma checada.

UAU!  Não exageraram. Eles eram mesmo tudo o que diziam, e um pouco mais. Redescobri a pólvora! Graças à internet pude "conhecer" gente que eu nem sabia que existia. Uma coisa puxou outra, um nome trouxe outro, um vídeo aqui, uma música ali, uma poesia, foto, filmes... Fiquei encantada com tanta gente maravilhosa que já passou pelo mundo.

Então... morri de pena da atual geração que não tem nem a primeira pista para começar a fazer suas pesquisas e se deliciar com o filé do filé.


Você já ouviu pelo menos falar em Mahalia Jackson?  Ela era uma deusa, tinha a alma e emoção. Uma voz encorpada e envolvente. Cantou no evento onde Luther King proferiu seu famoso discurso. Amo essa mulher - que já morreu há décadas.

Sabe a voz mais perfeita e bem-dotada do mundo?  Ah, você tem que ouvir Ella Fitzgerald cantando Blue Moon. Não precisa ouvir mais nada se não quiser, mas Blooe Moon é obrigatório. Cantando ala parecia ser toda azul, toda etérea. Fazia o que quisesse com a voz, todo tipo de malabarismos, todo tipo de travessuras só as fumaças azuladas sabem fazer. Me "apaixonei" pela muié na primeira vez que prestei atenção nela.

Uma certa vez eu estava distraída em casa e um vizinho resolveu colocar seus "discos antigos". Achei estranho mas resolvi prestar atenção "àquela velharia" . Cara, que mulher era aquela? De quem era aquela voz? Ninguém, absolutamente ninguém cantava mais daquele jeito. Sim, era Elizete Cardoso. Você já ouviu falar dela sim, mas não deu a mínima porque era preferência do seu avô e você é super moderno. Quem liga para as preferências dos avós, né?  Ouça, preste atenção e depois me diga se esse pessoal que aparece na Globo não parecem gralhas perto da Elisete. E a Dalva de Oliveira? Nossa!

Essa semana resolvi matar a saudade da Clara Nunes. Eu não lembrava mais de como ela era incrível. Poucas cantoras tem uma voz tão límpida como Clara. Límpida, dicção per-fei-ta. Cada palavra cai em nossos ouvidos como cristaizinhos lapidados. Ela cantava, cantava mesmo, e puxava a gente pra perto dela. Clara Nunes era o Brasil, era nosso ritmo, nosso batuque, nossa alma e nosso sorrisão. O sorriso mais lindo do mundo e um ar de bondade que jamais descobrirei se era a verdade ou só fantasia da minha cabeça. Mas que tinha, tinha. Clara Nunes não pode ser esquecida.

E você já deu uma checada na vitalidade, na força criativa dos Novos Baianos? Eles eram absolutamente autênticos, musicais, cheios de vida, uma bomba de juventude, uma arejada na cara do Brasil. Eram a jovialidade sonhadora e livre.

Pobre geração a nossa. A maioria jamais vai conhecer o que o mundo produziu de melhor.

Você já leu, leu mesmo, as letras das canções do Chico Buarque? Você conhece um pouco da poesia de Vinícius de Moraes? Já ouviu as coisas divinas que ele compôs? Vinícius é todo sentimento, todo paixão, todo entrega. Ele não tinha medo do amor, não tinha medo de ser perder. Abria o peito e mandava ver.  No Vinícius e no Chico a gente se reconhece. Eles dignificam todos os nossos sentimentos, porque nos reconhecemos no que eles fizeram e vemos que, afinal de contas, não compomos como eles mas sentimos as mesmas coisas. Eles vestem nossa camisa, nos dão voz.

Você já ouviu a voz máscula e profunda de Johnny Cash? Sabia que ele cantou com Elvis e o inspirou? E já sentiu a emoção da voz de  Joan Baez? Ela tinha uma espécie de "romantismo ideologicamente puro" que conquistava. Era quase ingênuo, uma coisa que simplesmente não existe mais. Isso não cabe mais em nosso mundo. Era uma coisa doce feita do mesmo retalho de John Lenon. Ela cantava como se todos fossem como ela, como se todos pudessem sentir daquele jeito, como se não precisasse se explicar, como se aquele momento da historia da música jamais fosse deixar de existir.

E você já tomou Janis Joplin na veia? Não conheço "roqueira" mais intensa, mais louca, mais pirante. Janis tinha um brilho, uma capacidade de se entregar e mexer com a nossa cabeça.. Uma coisa muito louca. Uma espécie de Amy em estado bruto. Apaixonante. Amy compunha e cantava muito, muito bem. Mas Janis Joplin brilhava!

E o Joe Cocker? Nossa! Eu nem sabia que ele existia até que um dia desses vi sua performance no famoso Woodstock. UAU! Era a cara da época, da jovialidade apaixonada.

E a lenda  Bob Dylan? Pare um dia pra ouvir o que ele fez e você entenderá.

E temos uma lista imensa. Que tempos maus nós vivemos! Que perda imensa não ter mais esse pessoal conosco!

Estou adorando essa minha nova fase de descobrir trinta, quarenta, cinquenta anos depois o que todo mundo já sabia. Sugiro que você pare de perder tempo com abobrinhas e faça o mesmo. Você vai se surpreender!

Ah: aquela mulher bonitona logo no começo da postagem é a maravilhosa Bidu Sayão, cantora lírica aplaudida internacionalmente. Um dos nossos orgulhos.


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