.

.

21 de mai de 2013

A noite, na estrada

Não gosto da estrada à noite. Ela é estranha e triste.
Difícil eu me sentir feliz na estrada, à noite. Enquanto o carro balança, do fundo do meu rio são evocados fantasmas incômodos e amargurados.

Acho que todos os fantasmas são amargurados, se não não seriam fantasmas mas apenas pessoas que partiram.

As árvores na beira da pista parecem querer dizer alguma coisa, acenar talvez. Ou só pedir "fiquem comigo!" É como se soubessem de alguma coisa grave que eu ainda não sei. Da mesma forma que eu, elas olham e sentem a presença dos atropelados que não conseguem sair dali. Ficam parados, olhando também os carros passarem. Eles tem o mesmo olhar perdido das árvores mas elas, vez por outra, ainda olham para nós. Eles não.  Eles parecem procurar alguém, alguém que trouxesse sua memória e os fizessem entender o que estão fazendo ali.

Fico melancólica com esses seres da noite aí acabo lembrando de dores recentes, dores antigas e toda bobagem cinza acaba fazendo sentido. Na estrada, à noite.

Às vezes, na estrada, meus olhos ficam úmidos. É quando me cai no colo aquela solidão sem jeito e sem remédio porque não tem nada a ver com companhia. É solidão numa camada mais funda.

Olho os ciclistas corajosos pedalando por entre os fantasmas. Talvez alguns deles nem existam mais. Eles nem se olham para não se assustarem uns aos outros naquele ambiente estranho. O que faz uma pessoa vaguear assim sozinha pelas estradas? Tenho tanta pena dos ciclistas da noite!

A pior solidão é a da beira da estrada porque é um lugar onde ninguém pára. É um lugar para os fortes.  Acho que também sou forte.

Não gosto de ver aquelas pessoas paradas com o olhar perdido enquanto passo. Sinto por elas algo parecido com o sentimento pelos ciclistas.

O carro, paternal, me leva dali.  Minha cabeça está cheia de lembranças reverentes nubladas.

Meus irmãos ainda pequenos... a mesa de jantar com sopa quente... balões coloridos de aniversário...  cadernos e lápis... Eu, pequenina e amada  ...  as primeiras flexadas de felicidade, o amor ... E pelas costas um frio fatal, uma coisa incômoda.

Postar um comentário