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24 de mai de 2013

Oração do Milho - lindo texto de Cora Coralina



 "Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres. 
Meu gão, perdido por acaso, nasce e cresce na terra descuidada.
Ponho folhas e haste e se me ajudares Senhor, mesmo planta de acaso, solitária, dou espigas e devolvo em muitos grãos, o grão perdido inicial, salvo por milagre, que a terra fecundou.


Sou a planta primária da lavoura.  Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo. E de mim, não se faz o pão alvo, universal.  O Justo não me consagrou Pão da Vida, nem lugar me foi dado nos altares.  Sou apenas o alimento forte e substancial dos que trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre. 


Sou de origem obscura e de ascendência pobre. Alimento de rústicos e animais do jugo.  Fui o angú pesado e constante do escravo na exaustão do eito. Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante. Sou a farinha econômica do proletário.  Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.  Sou apénas a fartura generosa e despreocupada dos paiois.  Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.  Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.  Sou o carcarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.   Sou a pobreza vegetal, agradecida a Vós, Senhor, que me fizeste necessária e humilde.  SOU O MILHO"

Cora Coralina
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