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9 de ago de 2013

Cansemos


Ou eu não entendi ou eles não entenderam.

Esses dias postaram essa imagem no Face. Achei triste de doer. O que vi foi um homem acachapado, exausto sob as exigências de um mundo que cismou com a excelência.

A excelência não é para todos. Quem se enquadra que usufrua e deixe os outros em paz em suas cabanas.  Pior do que perseguir o vento é impor essa desgraça aos outros, achar que todo mundo tem que deixar a vida de lado para conquistar um pódio. Isso é uma forma de loucura.

Se você não dá descanso a si mesmo, você não sabe o que é compaixão. Quem não tem pena nem de si mesmo, no fundo é uma pessoa dura e seca.

 Dei uma olhada nos comentários a essa imagem. O povo achou o máximo! "Isso mesmo!" "Cada vez melhores!" "Assim que tem que ser, nada de se conformar!"  "Vamos nos superar!"  Cada um bradava uma frase mais doentia do que o outro.

Acho que temos que rever esses conceitos; foi só isso que postei. Temos que repensar. Por que não posso me contentar com o que tenho? Por que tenho que estar sempre competindo? Por que não tenho permissão para me amar como estou, onde estou, no nível no qual me encontro e valorizar minhas conquistas? Por que tenho que ter ambições incríveis e manter os olhos arregalados o tempo todo? por que tenho que dormir e sonhar com estratégias, não com paraísos? Porque o pódio é o melhor lugar do mundo? O que há de errado em procurar, ao contrário, apenas um laguinho com peixes?

Não acredito que só exista um modelo de felicidade. Felicidade, se tem modelo, tem um guarda-roupas tão variado quantas são as pessoas do mundo. Mas, como disse Vinícius,

"eis que os arautos da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos para cantar seus réquiens e os falsos profetas a ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras..." 

É mentiroso qualquer argumento que queira justificar um modo pesado de vida. É falso o profeta que quer me impor um espírito competitivo que não me cabe. Deve ser rejeitado todo o modelo de existência que me roube o prazer da própria existência ou que me ensine a odiar as frutas frescas da simplicidade e amar  os sabores artificiais da "excelência de consumo".

Não sou um cavalo de corrida. "Seja sempre a versão olímpica de si mesmo" - que frase infeliz!

Cansar é um privilégio, um direito e uma bênção. Cansemo, pois, quando nos convier.

Nenhum protesto contra o sistema é mais eficaz do que simplesmente não ouvir os clamores do sistema. Sair dele até onde me interessar, até onde me convier. Boicotá-lo em minha vida é o golpe mortal, não as bravatas aprendidas por aí.

Não preciso ser a melhor. Nem quero. Eu só queria ser a melhor se a melhor eu fosse mas se a idéia é me transformar num burro de carga, não me interessa. Não preciso fazer miséria para conquistar meu amor próprio.  De quem são essas vozes querendo nos roubar a paz, o descanso, a auto-estima? No pódio ou fora dele eu sou um ser humano maravilhoso e pleno. Os aplausos não me completam. 

Para alguns, o único sentido da vida é chegar a algum topo. Mas para outros o sentido da vida é escapar dessa armadilha.

Se eu estudasse mais, muito mais, muito muito mais, eu poderia conquistar um lugar mais invejável na escala social. Só que decidi que não. Fiquei onde estou e estou feliz. Não interessa nada eu ser "a versão olímpica de mim mesma". E quem tem moral para dizer que minha felicidade não é válida?


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