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28 de jan de 2014

A dor que queremos



Você não gosta de sentir dor. Nem eu. Mas se não gostamos por que detestamos a ideia de apagar nossa memória?

Que tal detonar de seu passado tudo o que não agrada? Se pudesse, você se livraria de toda a lembrança que lhe traz sofrimento?

A verdade dói, mas existe algo muito parecido com a verdade e que dói da mesma forma: a  MEMÓRIA.  De fato a memória é a nossa grande verdade.

Já ouvi muitas vezes as pessoas dizerem que "se eu pudesse, riscaria isso tudo de minha mente." Eu mesma já proferi esta frase. Claro que não foi do coração.  Esquecer o que vivemos é o mesmo que esquecer quem somos. Isso é assustador.

Você entraria em uma máquina sabendo que quando saísse estariam apagadas todas as suas memórias dolorosas?  O dia em que sua mãe morreu... aquele "não" de quem você amava, a ingratidão do amigo, a ingratidão para com o amigo, as noites de solidão, o desprezo de alguém, a manhã do assalto, a injustiça cometida, a palavra que não poderia ter sido dita, aquela atitude destrutiva, a humilhação, a raiva, o abandono...  Você apagaria tudo?

Já cheguei a achar que o passado se parecia demais com um dente estragado: só servia para doer. Mas que pensamento raso!  As tristes lembranças não servem só para doer: servem para fazer de mim quem eu sou.  Tirem de mim as dores e o que sobra é um fantasma. As lembranças servem para ensinar, para nos poupar de errar de novo, para mostrar o que é a natureza humana, para nos tornar mais humildes.

Se o passado é o que me forja e dele não abro mão, concluo que gosto de mim mesma bem mais do que até então supunha. Gosto de mim a ponto de continuar querendo a dor que me faz ser quem sou.

Assumir o passado é uma das pétalas do nosso amor próprio. É uma quê de "nariz empinado" diante da vida.


Etapas da nossa existência não podem ser "puladas".   Se eu subtraio muitas cenas de um filme, ele resulta sem sentido ou profundidade. Minha vida só tem sentido porque tenho um passado - bom ou não. Só consigo entender quem sou a partir de quem fui, do que vivi. Pois então que venham as memórias, as vergonhas, os arrependimentos, as mancadas. Não os renego. Aceito a minha vida como quem aceita um filho apesar de todos os defeitos.

Passado: essa é a dor que queremos. Porque a pior tristeza é não ter sentido, não ser ninguém.
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