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18 de abr de 2014

Patetas claudicantes e suas contradições

Não sei se vocês já notaram que há uma enorme contradição em acariciarmos a ideia de que "não existe certo nem errado, tudo é relativo" e ao mesmo tempo queremos justiça. Porque a justiça bebe justamente dessa água: existe sim o bem e o mal.

Justiça pressupõe firmeza. É necessário que saibamos a diferença entre o que presa e o que não presta, entre o que é aceitável e o que não é. Entenda: é impossível julgar sem julgar. É impossível incentivarmos o bom comportamento ou bloqueamos o mal se não admitimos sequer que eles existam.  Se um dia eu for surrada, roubada, desrespeitada, vou querer que o Juiz saiba muito bem o que é certo e o que é errado.

É estranho que tenhamos plantado a semente do "não-existe-certo-nem-errado" e depois nos assustemos com jovens que queimam índios. Não pode queimar? Por que? Era ruim para o índio mas era divertido pra eles!   Ensinamos que não existe nada realmente mal como os velhos diziam... aí depois queremos que nosso povo seja justo, respeitador, coerente, humano.  Por que seriam?  Eles aprendem rapidinho a se escorar em perguntinhas cínicas ("mas o que é justiça? responsabilidade? coerência?  humanidade? São conceitos relativos!").

Sim, tudo é relativo quando é "no dos outros". Quando é "no nosso" a coisa é sempre absoluta, já reparou?

Ao educar uma criança precisamos passar-lhe conceitos firmes. Se não os temos, deveríamos ser proibidos de ter crianças sob nossa responsabilidade. Uma criança percebe bem cedo quando não passamos de patetas claudicantes.

Se não sabemos o que é certo ou errado, não temos como afirmar que é mesmo muito feio largar um tapa na cara da titia. "Feio por quê?"  "Mas o que é feio ou bonito, afinal?"  "Em qual cultura?" "Algumas pessoas apreciam levar tapas"  Tem certeza de que esses conceitos são seus mesmo? ou será que foram impostos pelo poder instituído e a moral vigente? e bla-bla bla."     (Não aguento quem tenta se esquivar de uma discussão séria com essas frases de algibeira.)

Espero que vocês entendam que não estou contradizendo Einstein  nem falando mal da Filosofia. Pelo contrário: falta filosofia nesse mundo não-pensante. O que detesto é a moda de querer usar a teoria da relatividade de forma cínica.  Como vemos gente irresponsável, nociva e mal caráter achando que se consegue se justificar vestindo essa folha de parreira furada!

Todos sabemos que o conceito de bem e mal é relativo e a discussão antiquíssima, só que uma coisa é o exercício intelectual dessas questões e outra bem diferente é vivermos em sociedade e precisarmos de parâmetros de convivência. Uma coisa é admitirmos que uma coisa considerada má para uns pode ser considerada boa para outros; outra coisa bem diferente é concluir que por isso não existe nada realmente mau no mundo.

Discussões filosóficas são muito boas mas quando estamos sendo oprimidos o que queremos é solução. Não quero que nenhum agressor se sinta confortável e amparado pela nossa frouxura.

E quanto ao bem e o mal, tem mais:  se nenhum filósofo chegou ainda ao fim da discussão, por que deveríamos bombardear nossas crianças com a ideia de que talvez nada seja errado?  Porque permitir que isso saia do campo das idéias e se torne uma nova base para atitudes discutíveis? Por que deveríamos cooperar para que todas as nossas más inclinações encontrem um afago?

Se você é daqueles que "vencem discussões" recitando o mantra safado do "não existe certo nem errado, bem nem mal",   aguente bem caladinho quando estacionarem na sua garagem, quando lhe venderem mercadoria deteriorada, quando você descobrir que seu pai nem estava morto quando lhe retiraram o rim para abastecer o tráfico de órgãos. Considere que a sua angústia representa a felicidade de quem vai receber o rim!  Por uma questão de coerência você não deve reclamar. Não dê trabalho ao judiciário nem quando seu filho perder a vaga na faculdade porque um "esperto" comprou a  vaga dele, quando o síndico roubou todo o dinheiro do condomínio ou quando seu chefe trata você como capacho. Reclamar por quê, se quem fez isso pode ter agindo certo, afinal de contas? Aplauda, faça o mesmo e viva o inferno!

Prefiro ajudar a construir um mundo onde as pessoas acreditam na distinção entre o bem e o mal.  É verdade que nem sempre essa distinção é simples. Algumas situações são realmente complexas, mas as pessoas de bem continuarão tentando entender e a buscar o bem.

O Brasil vai muito mal justamente por causa de teorias capengas aceitas por abestados metidos a intelectuais.  Debaixo dessa tenda há muita, mas muita erva daninha.

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