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30 de jun de 2014

Fofura e constrangimento

Quando criança nada me irritava mais do que me constrangerem a demonstrar carinho. Não esqueço de uma dessas cenas do passado: uma amiga da mamãe chegando em casa, de visita, com a filha, que era uma menina da minha idade. Aí minha mãe ficava dizendo: "olha, uma amiguinha, Cristina! Dá um abraço nela! Abraça ela! Beija ela!" E todos faziam coro: "abraça ela!"

Eu me sentia péssima. Meu impulso era sair correndo e me esconder debaixo da cama. Aquilo me deixava muito triste porque fazia com que eu me sentisse um ET, alguém estranho com uma conduta dissonante, antissocial, esquisita. Eu não queria ser esquisita nem má, mas era assim que eu me sentia. Aquelas situações provavam que eu era uma menina má, que não se parecia em nada com as princesinhas doce dos contos que eu amava. Eu me sentia a bruxa, o aleijão, alguém que só minha mãe conseguiria amar. Então eu me sentia desnuda, exposta e humilhada com aquela exibição pública da minha falta de candura. E quanto mais a platéia torcia e me incentivava a ser meiguinha mais irritada, triste e confusa eu me sentia. E por fim eu chorava - para piorar as coisas.

E foi assim que descobri: 1) como as pessoas amam quem é fofo e carinhoso; 2) como as pessoas esperam ser platéia em shows de fofura; 3) como as pessoas se decepcionam com quem não lhes concede esse gosto; 4) como eu estava distante da meiguice que a sociedade exigia de mim. E daí passei o resto da minha vida tentando ser mais legal para nunca mais me sentir tão mal. Houve progresso, felizmente, mas nada que se compare às princesinhas dos contos de fadas ou às Madres Teresas.

Esses dias participei de uma distribuição de sopa a noite, pelas ruas do centro da cidade. Sopão. Fui. Nunca tinha participado e seria uma chance maravilhosa de agradar a Deus, ao próximo e, de quebra, ser moldada para o bem, evoluir.

Gostei de participar. Quer dizer... gostei e não gostei...

Uma série de sentimentos confusos demais agitaram meu ambiente mental. Primeiro: não acredito em amor sem envolvimento. Não amo quem não conheço, por isso preciso me aproximar das pessoas para ativar o amor em mim. Não é assim, de primeira, no automático.  Não me senti compelida a abraçar quem nunca vi, sorrir e dizer "te amo". Não sou assim, não dá.  Como ser de repente o que nunca fui? No entanto eu estava  lá, com o coração aberto e cheia de vontade de fazer o bem para os desfavorecidos. Mas voltei ao passado e tive a impressão de que havia uma platéia esperando uma atitude nobre da minha parte. Não existia platéia, mas isso impregnou minhas impressões por causa daquela situação da minha infância que já contei.

Bastou que eu abrisse a boca para conversar que percebi minha total falta de jeito. Eu me via sem graça, postiça. Talvez aquela fosse somente a voz do mal tentando me afastar do bem. Não sei. Mas minha conversa e meu sorriso eram desajeitados, travados, amarelos... e o amor e emoção que eu esperava que fosse jorrar continuou lá dentro do peito, quietinho, em forma ainda de semente. Não senti vontade de abraçar ninguém.

Um momento péssimo que me trouxe aquela birra infantil de volta foi quando uma das integrantes do grupo  chamou a atenção de outra dizendo coisas do tipo "não é só chegar e dar a sopa! Tem que se aproximar, tem que dar um abraço, dizer meu irmão, estamos aqui, eu amo você" e bla bla bla.  Não me fez bem ouvir isso. Voltaram à memória aquelas senhoras do passado me enchendo o saco: "abraça ela, Cristina! Beija a sua amiguinha!" "Me deixa em paz!" era o que eu queria gritar.

Quero muito chegar ao ponto de abraçar um desses mendigos, fazer amizade, oferecer ajuda e tudo o mais, mas preciso de tempo, preciso aprender, preciso tentar, preciso me sentir a vontade. Ainda não dá. Não que eu queira mal àquelas pessoas - não! Mas forçar a barra e fingir um sentimento que ainda não tenho que ainda não brotou... pra quê? Pra enganar quem? Me diga!

Então fiquei desanimada com a iniciativa do sopão. Me senti inadequada, um aleijão - como no passado. Humilhada pela minha visão de mim mesma em comparação aos outros.

Se não basta um coração aberto e uma mão estendida, adeus. Acho que se eu preciso aceitar o próximo mesmo ele sem banho, sem pente, sem noção, então o próximo precisa me aceitar assim, desajeitada e sem abraço. Se eles não precisam tomar banho para ganhar a sopa, por que tenho que maquiar minhas atitudes e sentimentos?

Uma pena, mas talvez eu não sirva para o papel...


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