.

.

18 de out. de 2014

Perdoai


Tenho mania de querer justiça e de implicar com a impunidade. Tenho mania de achar que ninguém pode ter sossego depois de cometer um mal.

Já fui diversas vezes desafiada quanto a isso no que se refere à minha fé. Por eu ser cristã as pessoas acham que me contradigo ao aceitar o Deus que manda perdoarmos os inimigos e ao mesmo tempo querer que os bandidos sejam exemplarmente punidos. Só que não  há contradição alguma nisso. Veja:

Perdoar é um mandamento de Deus PARA MIM, não para o Estado.  Uma coisa é dizer "perdoa". Outra coisa é dizer "imponha aos outros o perdão compulsório."  

Uma coisa é EU dar a outra face por convicções próprias, porque quis.  Outra coisa bem diferente é o Estado me forçar a dar a outra face. Aí já é cachorrice. Perdão só tem valor se for espontâneo e consciente. Se não for é só impunidade mesmo, não tem nada de elevado.  

O perdão em particular é o exercício do amor consciente e livre. É virtude. Quando você perdoa o ofensor, se ele continuar ofendendo o problema é seu. Sim, possivelmente você terá um problema mas esse é um risco que VOCÊ ESCOLHEU pagar.    Mas quando você quer que João fique impune pelo tapa que ele deu em José, você não está sendo bondoso. Está sendo cínico.  

O perdão tem um ônus para o ofendido. Por isso só ele tem o direito de decidir se quer ou não quer arcar com esse ônus.  É maligno impor  à coletividade o peso da impunidade  em nome do "amor". Que amor mais cara de pau é esse?  Mostrar "amor" às custas do sofrimento de toda uma coletividade? Que gaiatice é essa?

Evangelho é graça.  
Lei é justiça.
Misericórdia é melhor do que justiça. 
Impunidade é um inferno. 

Cristo JAMAIS pregou impunidade. A Bíblia toda mostra que uma vez praticado o mal, ALGUÉM VAI TER QUE PAGAR por ele. O pecado não é coisa de somenos. Impossível jogar o mal para baixo do tapete. Ele sempre volta. 

A  lição do Evangelho não é "deixa pra lá".   Deus não deixa pra lá.  O que ele nos perdoa é porque já foi pago.    Jesus se colocou em nosso lugar e morreu para ser a expiação pelos nossos pecados.  Mas isso é uma questão espiritual. A dívida para com Deus já foi paga, se aceitarmos esse favor. Mas a conta para com a sociedade não tem nada a ver com isso.  Deus "é outro departamento".

O resultado espiritual do pecado foi neutralizado, não porque Deus "deixou pra lá" mas porque a justiça de Deus pesou sobre Jesus. Detalhe: Jesus não foi obrigado. Deus não baixou um decreto dizendo que ele iria pagar pelo que fizemos. Foi um sacrifício espontâneo.

O princípio fundamental do Evangelho não é a impunidade, é a SUBSTITUIÇÃO.  

Todas as vezes que sugiro criação de leis severas vem alguém querendo me jogar na cara meu cristianismo. Ora, não é porque Cristo disse "perdoai" que vou sair por aí abrindo as  portas das penitenciárias.  É para EU perdoar, não para os outros. A ordem de Jesus foi para os seus seguidores, não para as instituições. 




Nenhum comentário:

Páginas