.

.

8 de nov de 2014

Onde está o meu cavalo?

Estou bem, só não posso ouvir histórias tristes  como aquela do filme que vi dia desses: os homens foram todos embora da aldeia, sorrateiramente. As mulheres ficaram perplexas, tristes, profundamente sós e cheias de medo. Os homens todos resolveram aderir à guerra mas não queriam ser impedidos, contraditados ou ouvir lamentos. Achavam que tinham que ir e partir sem alarde seria a maneira menos dolorosa para todos. Então deixaram suas famílias.   Veio a saudade, o medo, o frio, a dúvida se estariam vivos ou mortos, se um dia voltariam ou não. Inimigos chegaram ao vilarejo. Ficaram por lá embora não fossem acintosamente mandões ou intimidadores. Mas um dia alguém matou o cavalo de uma bondosa senhora que, até então, estava conseguindo aguentar toda aquela dor com muita coragem. Tudo o que lhe sobrou era aquele cavalo... então essa última dor foi demais para ela. Não pôde suportar. Entrou então em profunda melancolia e foi definhando. E eu, que a assistia de camarote, fiquei triste também.

A vida sempre consegue descobrir onde a gente esconde o nosso querido cavalo.

Qual a dor última que não poderei suportar? Qual o nome do meu cavalo?

Estou bem sim, mas meu coração se aperta com as dores incuráveis das pessoas que eu amo. Calo, não sei o que dizer, pareço indiferente, mas lá dentro fico perdida como se andasse a esmo pela floresta sem encontrar nem o destino nem o caminho de casa.

Uma música triste, uma criança com medo, um velho de olhar distante, tudo me faz chorar.  Mas estou bem! Isso não quer dizer nada. Só não entendo porque com tanta freqüência e por tão pouco, choro. Por dentro ou por fora choro,  e isso é muito constrangedor.

É possível estar triste e a gente não saber disso? Porque se estou triste, não me avisaram. Só sei que choro.

Agora me ocorre que tudo que há de comovente no mundo não passa de desculpa. A tristeza verdadeira de cada um de nós não reside em nenhuma dessas coisas. Esses fatos da vida são só dispositivos que facilitam a saída das nossas verdadeiras lágrimas aprisionadas.

Nossas lágrimas, todas elas, elas estão lá dentro armazenadas. São lençóis subterrâneos de água.  Só que o volume aumenta gradativamente e o volume precisa ter vazão se não a situação fica crítica.  Só que para haver vazão é preciso conhecimento, abertura para a luz, para fitarmos os fatos que nos levarão a choras.  Mas claro que não queremos isso!   Precisamente por esse motivo nossos rios não correm a céu aberto, mas em lençóis subterrâneos e silenciosos.

Ninguém pode "colecionar água" indefinidamente. Como a natureza é sábia, arruma naturalmente uma forma de fazer esse acúmulo de água vazar:  usa qualquer motivo, razoável ou não, para escoar a reserva excessiva. Qualquer motivo pode servir pra desabafar e depois seguir em frente como se nada tivesse acontecido. "Deixar pra lá" - essa é a essência da vida feliz.  Criança, Brasil, guerra, bolo que não deu certo, o desencontro com a amiga, a desilusão amorosa que não posso curar, o gato doente, a mãe morta, o cemitério distante, o governo, a multa, a mágoa, o erro, a palavra grosseira, a juventude finda... Tudo são só álibis, pequenas dores curadoras que aliviam a pressão daquele mundo subterrâneo e inominável que a gente não mostra nunca.

Ah como precisamos dessas válvulas de escape! Como é bom poder chorar e dar um motivo razoável que não atente contra a nossa imagem! Que não atentem contra a vida perfeita que tanto queremos exibir!
Postar um comentário