.

.

9 de mar de 2015

Tapetinhos tortos


Acho que me agarrei primeiramente às meias velhas da mamãe. Você entende o desespero por guardar pedacinhos das pessoas.  Eu queria relíquias. Fiquei também com umas blusas e uns pentinhos de cabelo, mas nada era mais "real" do que o par de meias velhas e os óculos quebrados.

Guardei essas coisas com a reverência dos tolos mas evito olhar para elas. Sempre me pergunto "por quê?" e digo a mim mesma que vou jogar tudo fora.  O fundo do meu armário é que sabe das minhas decisões inconclusas...  Vai chegar um momento em que precisarei me desfazer dessas e de outras coisas. Acho que tem a ver com "maturidade sentimental" - se é que isso existe.

Hoje, saindo do banho, me dei conta de que meu tapetinho de barbante  também é uma relíquia da mamãe. Apesar do carinho em tece-lo para mim, ela já estava cansada e sentia dores. Ela me confessou que não contou corretamente os pontos do crochê, de forma que o tapete ficou meio tortinho. Ela não teve paciência de desfazer tudo desde o início para corrigir a falha. Pediu para eu não reparar e me deu assim mesmo, carinhosa e encabulada.  Ela era perfeccionista mas a idade chega...  E essa foi a primeira vez  que vi seu perfeccionismo ser vencido.

Que reconfortante é meu tapetinho torto!  Como acolhe carinhoso os meus pés! Ele ainda me ensina e adverte. Quando o vejo, se estou alegre ele me aponta o dedo no nariz avisando que o tempo passa e nos rouba paciência e habilidades.  Quando estou meio triste ele diz  que  "-  Eu sou tortinho muito a propósito. É para você lembrar que não precisa se amargurar pelos seus erros. Não precisamos ser perfeitos para sermos amados. E eu estou aqui como testemunho disso, como um recado de sua mãe pra você!"

Acho que toda a nossa história com as pessoas são assim:  coisas que tecemos e que se perpetuam, sobrevivem a nós mesmos.   Nossa ternura e nossas falhas ficam impressos com toda a sinceridade do mundo, como uma espécie de DNA simplificado pra quem quiser ler.  É o nosso "livro da vida" . Deixamos pra trás carinho entremeado com pequenas falhas que não estragam tudo, mas também não podem ser ignoradas.  Não conseguimos puxar o fio, voltar atrás até o começo para consertar as coisas, mudar o início do que deu errado.  No final da vida temos que entregar o tapetinho torto mesmo, com um pedido de desculpas.

O tapetinho do banheiro é sempre um doce sermão. Se ele fosse reto e perfeito não seria tão amigo.

Minha mãe possuía tantas virtudes que eu me sentia uma formiga perto dela.  Foi um gesto imensamente delicado abrir mão de sua vaidade para me deixar uma lembrança de sua própria imperfeição.  Como uma mãe que se abaixa para abraçar a filha, ela desceu um pouco para que eu me sentisse melhor ao longo da vida. Desconfio agora que o "erro", ao tece-lo, não foi acidental. Ela queria que eu entendesse que a perfeição não é o sentido da vida. O sentido da vida é o amor. Se eu amar, ainda que deixe para trás tapetinhos tortos, eles sempre serão olhados com ternura, com perdão e com sorrisos.
Postar um comentário