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15 de jun de 2015

O estado inato do homem

Tempos atrás escrevi sobre a solidão. Uma das coisas que disse é que sempre percebi a solidão como uma espécie de amor proibido, doce veneno ou qualquer outro chavão parecido.

Tenho passado a vida a oscilar entre o desejo de ficar só e o medo de me lascar com isso.  Pelo sim, pelo não, resolvi garantir as coisas e salvar minha alminha de sofrimentos desnecessários. Mas permaneceu a curiosidade. Seria mesmo tão ruim assim? Ou as pessoas é que são fracas ou chatas, não suportando a própria companhia? Eu me acho muito legal. Sempre gostei do jeito como me trato, da amizade, do respeito e da compreensão mútua existente entre eu e mim. Será que com toda essa bagagem psicológica ainda assim eu desabaria?

Ainda não sei. Essa postagem não é a resposta, apenas uma luz inicial para apreciar a questão.

Essa manhã cancelei minha conta no Facebook - ohhh!  Percebi que estava gastando tempo demais com aquilo, além de me aborrecer e quem sabe aborrecer os outros. Nesse cancelamento pude sentir um gosto de despedida, de abandono, de saudade das pessoas. Foi uma espécie de adeus com o qual eu não contava. Como poderia um simples clique no botão "encerrar conta" trazer alguma carga sentimental?  Pois é, tá vendo como não sei nada da vida? "Quem sabe ainda sou uma garotinha esperando o ônibus da escola sozinha..."   Hoje, como estou dramática, digo que a experiência me lembrou o ato de acenar, do navio, para o cais que vai ficando lá longe.

Eu conversava com pessoas que moram muito longe. Um amigo nos Estados Unidos, outra em Madri, gente de São Paulo, Manaus, Brasília, Recife, Minas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pará... Quando verei esse povo de novo? Como eu teria contato com pessoas que moram tão longe e em lugares tão diversos?

Agora me vejo lendo notícias, crônicas, vendo propagandas, fotos, coisas engraçadas e coisas tristes e não tenho com quem compartilhar. Estou incomodada com minhas idéias represadas.  É algo como chegar da rua trazendo pacotes e não ter onde colocá-los, nem mesmo uma mísera banqueta. Você já chegou em um lugar querendo aliviar as mãos e não encontrou nem um pendurador de bolsas? Nem um aparador ou caixote? e teve que ficar segurando objetos dos quais gostaria de se aliviar? Pois é mais ou menos assim.

Não sei por que estou lhe explicando. Você deve saber!

Escrever em blog não é bem um compartilhar de idéias. Blogar é falar sozinho para não enlouquecer. Pelo menos comigo tem sido assim. Já pensei até em fazer apologias absurdas só pra ver se alguém se manifestaria mas desisti da idéia quando me lembrei da Lei de Murphy.

Li hoje que "a solidão é o estado inato do homem, cada ser está por si só no mundo" (Martin Heidegger). É verdade. Está aí um pensamento a ser explorado - mas com quem? Se eu o colocasse no Face logo apareceriam pessoas para serem contra, outras a favor. Apareceriam os legais, os chatos,  os surtados que não dizem coisa com coisa, os religiosos, os politicamente corretos, os felizes crônicos... O Face chega a ser perturbador pelo que tem de personagem esquisito e idéias dissonantes. É instigante do ponto de vista sociológico e psicológico. Um circo, um manicômio, uma sala de espera, uma festa, uma mesa de bar, um sei-lá-o-quê que, no entanto, nos dá a chande de discutir e se relacionar com as pessoas.

Em suma, a lição do dia é essa: solidão não é falta de abraço nem de companhia pra festa. Solidão é não ter com quem compartilhar as idéias.  Aprendi a lição 01: há algo de aflitivo nisso.


(Leitura complementar tudo-a-ver: http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/ivan-martins/noticia/2015/06/quem-passa-protetor-nas-suas-costas.html)




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