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8 de ago de 2015

Doação




E hoje encontrei tempo para tirar minhas cutículas.  Não sem me perguntar por que me dedico a uma atividade tão estranha. Geralmente me machuco. 

Por que uma parte de mim tem que ser declarada inconveniente? Qual tribunal decidiu que uma parte do meu corpo atenta contra o bem estar do todo?

Pois bem, o fato é que tenho muitas cutículas e como eu estava longo tempo sem podá-las imagine você a quantidade que saltou, dos meus dedos, para o desdém e para a morte.  Dever cumprido. Vitoriosa lancei de mim aquele estorvo. Sacudi a toalha no gramado, livrei-me do peso e me senti mais fofa. Sorri para meus dedos. Eles não entenderam.

Então uma sutil melancolia me cutucou.  Por que me separar com tanto desdém daquela parte de mim que, afinal de contas, sou eu mesma?!   
Pus-me a imaginar aquela pequena Cristina enjeitada sendo jogada fora.  Milhões de células desperdiçadas. Nasceram tão promissoras! Foram alimentadas e incentivadas a crescer,  mas de repente se veem despejadas da minha história sem quê nem pra quê. Cortadas de mim para sempre, sem compaixão.

Saudade não é bem o nome. Deve haver um nome pra isso.

Pobres cutículas que nada mais fizeram do que proteger minhas unhas cumprindo diligentemente o script genético que receberam. E o que ganharam em troca de tanta dedicação? 

Não não não! Vamos pensar de outra forma:  talvez exista alguma beleza no meu gesto. Vejam: doei-me! Não é elevado?  Doei-me generosamente à natureza: "crescei e multiplicai-vos! Hora do lanche." 

Incorporei-me às formigas e à terra. Consenti em participar de uma vida em comum com os seres de baixa renda, em uma nova e misteriosa aventura. Liberei uma parte de mim para conhecer um outro mundo. É como deixar o filho partir para estudar no exterior. 

Imagine a festa das formigas comendo a Cristina.  Primeiro a surpresa com a chuva de cutículas. Para elas foi como o maná do céu. Até porque tenho saúde e me alimento bem. Depois rapidamente a notícia se espalha. O bairro se agita, é um zum-zum-zum e todo mundo põe a cara pra fora já imaginando a parte que lhe cabe. E assim, naquele formigamento aparentemente desencontrado, fui sumindo, carregada nos braços do povo em procissão.  Até me comovo.

Fui generosa. 

Mas... continua a melancolia. Não, a coisa não deixou de ser meio estranha. Talvez indecente, essa coisa dar-me assim, sem nem pedirem. A essas alturas estou viajando no lombo de alguma formiga faminta, suada e de olhar hostil.  Ela vai passando com o precioso carregamento e olha ameaçadoramente para os grilos, mosquitos e outros insetos que observam silenciosos, encostados no muro. Ninguém chega perto. Meu Deus, para qual favela estão me levando?!

Posso parar com esses estranhos pensamentos e tentar ser mais científica: e se meu temperamento estiver impresso em minha genética cuticular? E se as formigas absorverem algo da minha personalidade?  Seremos aparentadas?  Experimentarão sentimentos semelhantes? Criarão blogs? E se as anteninhas da nova geração puxarem a mim e nascerem encaracoladas? Isso lhes traria problemas? Interferiria na recepção de sinais?

Se passei algo de mim pra elas, então não sei dizer se melhorei ou piorei o mundo. Um caso a pensar.

Onde estou, agora que já é noite?  Em qual estômago azedo sou vorazmente digerida?  

É incômodo imaginar que o ato de dar cutículas aos vermes nada mais seja que o prenúncio do dia em que meu corpo todo será devorado por eles.  Em suma, só estou adiantando as coisas. Credo. Pensando nisso quase ouço uma vozinha fina e cínica saindo lá meio do gramado: " aí Cristina! Valeu o convert!"  


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