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12 de out de 2015

Os frangos, nós e os vermes




Não sou vegetariana. Comer carne é animalesco, violento, gostoso e o sangue é só um detalhe. Em minha defesa tenho a dizer que não sou o único animal carnívoro e desalmado que pisa o planeta. 

Não, não sou tão desalmada. Estive pensando na situação dos frangos...

Quantas e quantas vezes já me flagrei com um frango entre os dentes e o coração pesado a considerar a brevidade daquela vidinha tão desprovida de sentido. Tem sido doloroso imaginar que algo sagrado - a VIDA - possa acontecer sob determinações contábeis com o fim único de ser destroçado por humanos impiedosos.

Pense em toda aquela expectativa da galinha, do "coito" à constatação de que mais um lindo ovo viria ao mundo! E para quê? Pra ser quebrado em minha frigideira. Ou sadicamente alimentado e espionado até atingir a idade do abate. Que porcaria de vida é essa?!

Podemos dizer o mesmo do boi e de tantos outros desafortunados que pisaram esse mundo sem perceber que nenhuma de suas qualidades seria apreciada, a não ser o valor nutritivo.

Do nascimento à morte, o que pode haver de interessante na vida de um bicho desses? Por que desenvolveram inutilmente habilidades? Por que aprenderam a andar, nadar ou voar? Por que ter lindas penas ou pelos macios se tudo se acabará no Auschwitz da nossa cozinha?!

Qual a especial ventura que eles experimentaram? Qual o plano de existência, o ato de bravura ou sonho a ser registrado? Quem se interessa pelo que cada um desses animais possa ter de singular? Manias, preferências, fobias, sobressaltos... De nada disso restará lembrança. Passam pela vida como coisas vãs.  

Sabe, isso me inquieta. Não o suficiente para passar fome, mas inquieta.

Ah como é confortável ser contada entre os humanos! Eu: um ser superior! Os reis da floresta somos nós! Que chique mandar no pedaço, escolher quem morre e quem não morre, se é com fritas ou farofa. Somos quase divinos. Pelo menos em comparação a uma lula eu sou. Falo por mim - não sei você.

Então...  Enquanto pesarosamente eu comia e lamentava a má sorte daqueles azarados, me ocorreu o seguinte pensamento:  é possível que esse tipo de consideração também ocupe a mente dos vermes que nos comerão. Talvez entre uma mastigada e outra eles imaginem qual seria nossa reação se descobríssemos que nascemos apenas para alimentá-los  e que todas as nossas lutas e conquistas são só passa-tempo enquanto engordamos - para eles. Talvez sintam por nós a mesma peninha cínica que eu sinto pelas galinhas e bois. 
- "Pobres humanos... Que sentido tem suas vidas? Tanta correria, privação e aborrecimento por nada! Se eles soubessem que a única finalidade das suas existências é servirem de alimento para nós! Ô vidinha mais besta a dos humanos! Se soubessem a verdade da sua própria insignificância eles deixariam de levar seus problemas ridículos a sério. Coitados..."

Que mundo estranho o nosso!
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