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2 de fev de 2016

Desespero e aflição


Há desespero nas águas quando saem dos esconderijos. São frias e assustadas, quase humanas. Dirigem-se à perdição, brancas e magérrimas, geladas como os condenado prestes à execução. Elas vem de um rio escondido, de ventre sofrido e arranhado por mil pedrinhas, revolvido por peixes estranhos, folhas órfãs, galhos e cabelos de moças que desistiram de viver. As águas, elas se jogam num momento de pura coragem e só são vencidas pelo medo quando já estão no ar e não há mais salvação.  Por um momento se desesperam mas depois se entregam, quebram-se,  desfazem-se em milhões de cacos redondos, gotículas de beleza preciosa. Pérolas brancas e fugazes.

Às vezes são leite espumante mas jamais champagne. Não conseguem. Abrem no ar um véu de gotículas, fina rede capaz de acolher um arco-íris inteiro.

Há desespero nas águas
Quase humanas em suas mágoas...

Gosto quando por instantes pairam no nada antes da queda final. Quando por fim despencam, suicidas, sua última visão são as pedras lá embaixo. Trêmulas. Horrorizadas. Parte do véu se desfaz . Há uma fuga envergonhada para as margens dos lagos. Desintegração e adeus.

Há então desespero nas pedras, aflitas, que não lhes pode socorrer. Quantas mortes apararam? Quantos olhos de vidro! Quantos cabelos e vapores brancos já alisaram suas cascas frias!

As pedras queriam ser parteiras mas só aparam o adeus.

Às vezes penso que toda beleza do mundo se despede o tempo todo e nunca chega a ser o que queria. Tudo são abortos sugados para o centro escuro do mundo.


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