.

.

20 de mar de 2016

Brincadeira das sete horas


Deitei, fechei os olhos. Aquela preguiça das sete horas da noite. Aquela, antes de a gente resolver tomar banho, jantar, fazer umas coisas e finalmente dormir. Não vou dormir agora. São só sete horas!

Eu gostava de ficar assim, sozinha, parada, nessa hora mágica, desde quando ainda era pequena e ninguém que eu amava ainda havia morrido.

Fecho os olhos e trago para cá meu mundo imaginário. Nessa hora tenho muito poder de  "fazer de conta". É fácil. Basta ficar quietinha e se concentrar. Você comanda tudo com a mente e ela lhe leva para onde desejar e para a época que você quiser. Basta querer muito, mas muito mesmo. A saudade ajuda.

Faz-de-conta que sou criança. Sou pequena e estou deitada na cama dos meus pais. Não é hora de dormir. Ainda não jantei. Mamãe vai me chamar daqui a pouco. Tomei banho, estou perfumada e a cama dos meus pais tem um cheiro muito acolhedor. Adoro aquele lugar.

(Está funcionando!)

A luz do quarto está apagada mas a da sala está acesa e clareia parte do meu corpo. Sinto o cheiro gostoso da sopa que vem da cozinha. Sinto-me querida e segura e só vou abrir os olhos quando minha mãe me chamar. Quero que ela me chame, não quero levantar sem isso. Quero que se lembre de mim, que sintam minha falta, que mencionem meu nome. Meu vestidinho está limpo, minha calcinha é de algodão e a cama dos meus pais é tão cheirosa! Quero ficar aqui pra sempre. O quarto está em ordem e sinto o cheiro do chão recém encerado. Minha  boneca nova está guardada no armário, dentro ainda da caixa. Ela também tem um cheiro gostoso. Estou feliz demais com minha boneca nova. Amanhã vou brincar com ela. Sinto um aconchego dentro de mim, uma coisa gostosa me oprimindo o peito. Quase dói. Acho que é felicidade.

Meu pai saiu agora do banho. Ele entra no quarto com uma nuvem de aromas úmidos. O vapor da água quente chega a mim quase como um carinho, quase como um ser vivo e percebo o cheiro da loção que ele passou no rosto. Rio de mansinho porque ele pensa que estou dormindo. Não estou! Estou aqui sentindo a presença dele, achando-o maravilhoso com os olhos fechados mas com a mente aberta e alerta.  Reconheço-o, vejo-o enrolado na toalha sem precisar abrir os olhos. Ele me parece tão forte, tão grande! Seus cabelos escuros e cheios estão ainda ensopados. Ele está cansado mas feliz, faminto e em paz. O mundo lá fora não existe e ele me ama. Não abro os olhos mas sei que ele é o homem mais bonito do mundo. Sua voz está dentro de mim.

Continuo assim, deitada e vendo tudo. Ouço ele abrir a gaveta. Cai um talher na cozinha. Maurício diz alguma coisa para a mamãe. Minha mente passeia pela casa.

Chegou uma visita para estragar tudo. É uma mulher. Sei que minha mãe vai me chamar para cumprimentá-la mas eu não quero. Quero ficar aqui, assim, sentindo minha casa, adivinhando onde está cada pessoa, o que estão fazendo, percebendo-as, amando-as, tendo medo e me preocupando com elas. Sei que meu irmãozinho está quase dormindo e que minha irmã brinca com as bonecas.

Daqui a pouco vão me chamar. Daqui a pouco terei de beijar a visita. Daqui a pouco iremos jantar. Ele penteou os cabelos e respingou aqui em mim. Água geladinha.  As pessoas estão rindo na sala.  Acho que eles estão falando nas crianças - falando em nós! Acho que somos muito importantes.

Vou contar: um... dois... três... quatro...


Cristina Faraon
Postar um comentário