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16 de mar de 2016

Dois mundos



É mais ou menos como duas mulheres lindas em mesas opostas.

Sabem-se perfeitas mas nenhuma tem certeza de que seria a escolhida. Olham-se com curiosidade, comparam-se, invejam-se mas nunca se aproximam. Quase se amam mas se repelem.

Qual perfume ela usa? Ama? É feliz? Seria mais amada do que eu? Seu corpo é mais firme? Todas estas luzes, estes brilhos todos, são verdades que vem de dentro? Sorri deveras? Meu Deus, quanta delicadeza, quanta riqueza de detalhes, como é sedutora em suas múltiplas artes!

Quão mais atraentes me parecem essas luzes do que a naturalidade das minhas águas que jorram sem maquiagem, selvagemente! Minhas margens verdes e frias, meu barulho, meu cicio, o que seria mais desejável?

Eu represento a paz que todos procuram mas ela, a glamourosa, é a segurança, a vaidade que os homens inseguros tanto precisam ostentar. Todos a querem durante a semana. Todos lutam pelo seu brilho. Poderiam talvez matar por ela, por sua loirice refulgente mas minha paz é ardentemente desejada por noites e noites em sonhos confusos e inconfessáveis. Porque eu sou o que de mais primordial os homens precisam. Sou a mãe, a mulher nua que os quer sem terno e sem carro. Sou o desejo na terra, na água e no mato, sou tudo, o transe natural e sem insegurança; sou a completa aceitação, a plenitude. Sou tudo o que jamais deixariam de querer se não houvesse a civilização. Por isso voltam para mim como quem volta para si mesmo desesperadamente.

Mas a outra também olha do outro lado a mulher selvagem e, entre as suas jóias, pensa na exuberância daquela que precisa de tão pouco para ser amada. Daquela que com um simples canto os arranca de seus braços dourados com uma facilidade desconcertante. E eles vão hipnotizados, seguindo uma cantiga que ela mesma nem escuta. Aos finais de semana tudo o que eles querem é a paz, o sossego daqueles braços verdes. Impossível competir! Como ela é linda, meu Deus! Como é tão linda com tão pouco?  Mas terminado o final de semana, saciada, ela os devolve todos! Joga-os de volta para mim fazendo tão pouco caso... como se não me custasse tanto essas companhias.

Dois mundos... como duas mulheres em mesas opostas.
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