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8 de mar de 2016

Liberdade: dá pra se livrar?

Já que hoje é Dia da Mulher vou atacar de Chiquinha Gonzaga, a mulher que ninguém segurava, que mandou tudo às favas porque gostava da noite, da vida artística, da música, da liberdade.  Deve ter sofrido, deve ter ficado mal falada... mas não conseguiu se limitar ao papel de mãe e esposa.

Já falei sobre isso mas vou falar de novo: a liberdade verdadeira, em estado bruto, é maior do que quem a porta. Ela engole tudo e não pode ser dosada. Se dosar, não é. É essa liberdade que mais me faz pensar.

Dizem que "liberdade a gente conquista" e que "fulano conquistou sua liberdade". Sim, liberdade física, política. O tipo de liberdade menos instigante e mais comum. Liberdade exterior. Tá, é relevante sim, mas não é dessa que estou falando. Estou falando da liberdade interior, essa que poucos conhecem; essa luz ofuscante que dita a vida de muito pouca gente.

Liberdade interior não é algo que alguém possua. Você possui liberdade de ir e vir, liberdade política etc. Você possui essas liberdades conquistáveis. Mas a forma mais autêntica de liberdade não pode ser possuída porque é ela que possui as pessoas. Ela domina. E domina de tal forma que o servo dessa liberdade sofre, muitas vezes atê vê o mundo desmoronar ao seu redor mas simplesmente não consegue se conter. Não consegue se limitar , planejar, encaixar, ser menos.

A liberdade que a gente dosa é a liberdade que a gente pensa que tem.

Chiquinha Gonzaga era assim. Não dava pra ser o que não era. Existem milhões de pessoas no mundo que vivem uma vida que não desejam, mas vivem. Porque acham que é o certo, o mais decente, o mais razoável. Mas a pessoa livre não pensa muito nisso, só pensa no que quer e no que gosta.

Não acho nada bonito abandonar marido e filhos pequenos simplesmente porque gosta de música, gosta da noite e o marido  não queria que ela se envolvesse com música popular e a galerinha dos palcos. Para mim, tanto quanto para muita gente, não parece razoável que a música seja mais importante que o lar, a família, o sentimento dos filhos, o marido, a respeitabilidade social, a segurança. Além do mais ela poderia tocar em casa, compor em casa, para a família, deleitar-se consigo mesma. Não, mas precisava ir além, sem freios, botar o pé no mundo, na noite, no carnaval, sem hora pra dormir, sem hora pra acordar, sem regras.  Certamente ela pagou caro mas quem é livre não faz conta de preço. Talvez ela até quisesse ser como as outras mulheres, que usam o que tem de liberdade para dosar a própria liberdade.  Mas quem segura o vento?

Muitos homens são assim. Querem sinceramente uma família, mulher e filhos. Querem sinceramente fazer a coisa certa, mas algo maior dentro deles não deixa que se limitem aos seus ideais. Há uma coisa mais forte que os chuta pra fora.  Um ímpeto de simplesmente fazer o que tem vontade. Depois sofrem e fazem sofrer e se arrependem sabendo que jamais mudarão.

Chiquinha Gonzaga era livre como a maioria dos homens o são. Sinceramente não sei se é bom ser possuída por esse tipo de liberdade impositiva. Não, não é bom nem é bonito. Assim é a "liberdade primal": uma força que impede a pessoa de ser detida por seja lá o que for. Uma impetuosidade que faz com que o sujeito enxergue a si mesmo como urgência das urgências e faça apenas o que quer fazer, ainda que isso lhe custe outras coisas que tanto ama. Ainda que ele jamais saiba com certeza se valeu a pena.

Esse é o tipo de liberdade que não se conquista; a pessoa nasce com ela - ou não. A grande conquista, nesse caso, é a "vítima" conseguir se livrar dela.
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