.

.

27 de abr de 2016

Azul



Entrei esses dias em um palacete antigo onde sempre tive vontade de entrar. Não tive acesso a todos os cômodos mas entrei. Passei por um portão de grades trabalhadas, azulejos desgastados por milhares de chuvas, saltos e pontas de guarda-chuvas.  Mas apesar de tantos rastros tão mais sólidos do passado, nada me comoveu mais do que aquele azul.

Tudo me comove em construções antigas, de forma que já estou acostumada a ser tocada por maçanetas de louça, vidraças jateadas, tábuas corridas, coisas simples, curiosas, comuns ou graciosas da arquitetura do passado. Adoro principalmente  quando as paredes levantam as saias e me deixam ver pedras desiguais e o barro que as une. Mas agora foi a primeira fez que o que me fisgou foi a cor.

Ah o azul celeste descaradamente romântico, delicado e fora de moda! Sabe o azul celeste que, quando muito, vemos em quarto de bebê? Pois ali estava ele, naquelas paredes enormes, recostado no branquinho de portas e janelas.  Tão fora de uso que se olhássemos só pra cima só veríamos o passado - e aí que estava a mágica. Fixei meus olhos do meio da parede pra cima, pra não pegar pedaço de móvel nem de cabeça de ninguém.  Funcionou. Tive então uma sensação de paz, uma coisa tocante,  desejo saudoso de sentar ali, de vestido comprido e rendado, sabendo que não haveria carros lá fora. Era como se alguém me pegasse pelo braço e me mostrasse exatamente o que está me faltando e de onde vem minha melancolia.   Então vieram ondas suaves de memórias não ocorridas, lembranças não vividas e imagens de pessoas não nascidas. Vi a rua de pedras, o vendedor de cocada passando com sua camisa branca e puída, sem sapatos. Vi a mim mesma sentada enquanto uma menina brincava no chão com seu vestidinho de algodão. Por algum motivo todas as roupas eram claras, inclusive a da serviçal que ali estava, tranquila, sem pressa, nos fazendo companhia como boa amiga. Havia também uma máquina de costura perto da janela e eu sabia que outras pessoas transitavam na sala e na cozinha, atrás de mim, E todos me respeitava, e eu era velha e feliz,  Os poucos ruídos eram domésticos e denunciavam cada morador daquele palacete. Da rua só vinha o silêncio e o sol brilhante e a certeza de que a qualquer momento alguém querido iria chegar. Uma comoção calma vinda daquela parede azul, um sussurrar de um passado distante e desconhecido que no entanto não deveria se perder porque fazia parte de mim, de todos nós. O que sabemos de nossas tataravós?

Como era tudo tão diferente das cores vibrantes nas quais ando envolvida! Por que a gente muda tanto? Então eu quis o azul pra mim, quis muito! Quis ele e tudo o que ele conseguia fazer comigo. Desejei mais do azul como quem deseja mais uma fatia de bolo, mais um biscoito de manteira, mais uma bolinha de polvilho, numa espécie de gula da alma.

Lembrei do almoço e do lanche que viria com aquela tarde calma. Senti uma paz tão grande com aquele cor que eu não queria mais olhar para baixo e me deparar com a mesa, a moça, o computador, os arquivos e tudo o mais que afugentaria aquela mágica.  Aquele azul não combinava com nada que estava naquela sala.  Quem decidiu que aquela cor deveria permanecer ao longo dos anos? Isso só pode ter sido imposto por algum espírito antigo. Alguém do passado impôs de alguma forma, usou algum modo misterioso de influência para que isso servisse  como sinal de que ali já morou uma família distina , que aqueles ambientes aconchegavam suavemente gerações contemporâneas, que havia paz na janela aberta e música na máquina de costura. Ali estava todo o meu passado absurdo e não vivido.

Saí del lá com umas figuras de Versalles grudadas na parede da memória. Tudo por causa de uma bendita parede azul.
Postar um comentário