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19 de abr de 2016

Papel-papel

Lendo um romance, esses dias, deparei-me com uma cena simples, comum, na qual alguém mencionava o uso de "papel almaço".  Foi quando lembrei que esse é mais um item simples e querido do meu passado.


Antigamente, nos dias de prova, cada aluno tinha antes que passar na papelaria e comprar uma - ou duas folhas, por precaução -  se quisesse fazer a prova. Se não levasse o seu papel, o aluno estava frito.

Qualquer papelaria decente tinha papel almaço.  

Outro item tambem sumido do meu cenário de criança é o papel carbono. Ah o papel carbono! Como eu gostava dele!  Era o que havia de mais pratico para copiar desenhos e fazer trabalhos escolares. Como trazer para o caderno um mapa do Brasil? Com papel carbono, ora bolas!  E como copiar desenhos para colorir? Datilografar trabalhos, contratos, recibos, notas fiscais, tudo em três vias? com papel carbono. E os moldes para bordados?Também. Era o salva-vidas das pessoas laboriosas. Qualquer escritoriozinho de ruela esburacada tinha que ter. Poderia faltar papel higiênico, mas jamais o carbono.  Qualquer mãe que prezasse o sucesso escolar dos seus filhos tinha também, guardadas em alguma gaveta várias folhas novinhas.

Sei que parece bobagem mas dá uma saudadezinha dessas pequenas coisas que habitavam meu dia-a-dia. Se esses itens não sairam de circulação, pelo menos do vocabulário das crianças saíram. E eu, que não imaginava como alguém poderia se virar no mundo sem eles, vejo que todos seguimos em frente e estamos muito bem, obrigada.

Ah as papelarias de antigamente... Graças a Deus as cartolinas ainda existem! Mas se quisermos decorar cartazes com decalque, ficaremos na mão. Eu adorava comprar decalques. Pedia para a moça do balcão e ela trazia da prateleira uma caixa de papelão cheia de decalques com as mais variadas figuras para ilustrar trabalhos, decorar cartas, cartazes ou sei lá mais o quê. Eu ficava um tempão escolhendo. Queria todos! Na dúvida, os ramos de flores sempre venciam.

Se você não sabe, os decalques eram os ancestrais do clipart.  O Control C + Control V da época era assim:  a gente mergulhava a figura num píres com água. Deixava mais ou menos um minuto e quando ela estava desgrudando do papel, pegávamos com cuidado e fazíamos com que escorregasse para o local onde ficaria para sempre. Depois era só pegar um paninho bem macio para secá-la e pronto! Uma maravilha.

Acho que chega uma época da vida em que reviver se torna mais divertido do que viver. Nesse ponto torna-se quase irresistível tentar seqüestrar o interesse de quem estiver por perto para o nosso baú de lembranças.  Não adianta muito.   É que não queremos sentir nada sozinhos. Quem bebe, quer beber acompanhado. Quem come também. Cinema bom é com alguém do lado, para discutir (ou explicar) o filme. Pois também queremos companhia para as nossas saudades. Nada mais compreensível!  Mas geralmente o que a gente consegue, se tiver sorte, é um ouvinte educado (educado por fora e inquieto por dentro).

A vida, às vezes, é cruel.

Junto com o papel almaço,o carbono e os simpáticos decalques, lembrei da minha pasta escolar, que era de couro!  Não, na época ainda não era chique. Você vai rir mas vou contar: lembro bem do surgimento das revolucionarias mochilas. No começo achei meio estranho andar com uma pasta nas costas.

Pra terminar: minha camisa do uniforme era de algodão puro. Na época isso também não era chique. Chique foi o que vi uma colega usando: uma leve e "inamassável" camisa de poliéster!   Bem que eu havia reparado que a menina estava sempre impecável e sua roupa não amassava nunca!  E eu, mesmo tomando todo o cuidado, amarfanhava. Foi quando descobri que o truque eram os uniformes de poliéster, que não amassavam! Ô inveja!

Como as coisas mudam...

Os adultos diziam, quando eu era menina, que sentiam saudades de um certo "papel mata-borrão". E eu perguntava pra que raios poderia servir aquilo. Alguém me explicou que eles eram necessários porque as canetas não eram esferográficas. As canetas-tinteiro, ou as penas, às vezes encharcavam com a tinta do potinho, entende? Então pra não borrar o trabalho usava-se o papel mata-borrão, que na minha opinião seria melhor denominado como "papel chupa-chupa".

Está chegando a época em que ninguém mais vai ser tão específico quanto aos papéis. "Mata-borrão, almaço, carbono, papel quarenta quilos, nada disso vai ser mencionado. O que as próximas gerações vão sentir saudade mesmo é do ... papel! Pura e simplesmente.

Pra você ver: eu estou escrevendo tudo isso sem matar nenhuma árvore?!
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