.

.

25 de mai de 2016

Ovos

Não tenho mais aquela infinidade de postagens pre programadas. Não que me falte assunto mas escrever é como se locomover em um campo minado. Há uma infinidade de assuntos proibidos. Aliás os melhores temas ou são proibidos ou devem antes ser esterilizados.

Há opiniões ofensivas, categorias de pessoas que não devem ser tocadas... E quanto mais a gente evita pisar nos ovos, parece que mais ovos aparecem.

Esses dias fui criticada porque falei em "calcinhas". Outro dia me flagraram usando uma ironia que poderia não ser compreendida pelos negros. Fui lá e tirei. Foi o único momento em minha vida em que me senti caucasiana.

Os bons escritores, os verdadeiros, que nasceram cheios de palavras e tem tudo transbordando, essas pessoas querem mais é que tudo vá às favas. Eles falam, pintam, mencionam, expõe a si  mesmos como se estivesse mexendo nos outros. E mexem como os outros com a liberdade de quem tira a própria roupa.  Confessam, resmungam, apontam o dedo, cutucam, espetam, jogam carapuça, pintam os canecos!

Acho que em termos de relações políticas são uns desastrados e se não fossem não teria graça nenhuma o que escrevem.  Ou quem sabe são apenas ingênuos?  Acho que eles todos vivem em outro mundo onde a arte é mais importante do que as relações humanas.

Pense comigo: será que o Vinicius não tinha amiga feia quando disse que "a beleza é fundamental"? E como Florlbela Espanca não mantinha nenhum orgulho ao mostrar sua fragilidade diante de um amor não correspondido?  E será que Garcia Marques não tinha nenhuma amiga idosa para ter a coragem de dizer que velho tem cheiro de velho e esse cheiro não é nada agradável? Quando ele escreveu isso não pensou nas tias? Nas amigas? Mãe? Não, não pensou. Nem por um minuto. Por isso ganhou o Nobel de literatura. E Graciliano Ramos, em Vidas Secas? Lembram daquela parte em que fica claro que o velho doente estava atrapalhando a tudo e a todos? Pois é. E Machado de Assis ridicularizou a virtude humana, fazendo-nos rir da sua falsidade. 

É disso que estou falando: ovos.   Havia ovos no meio do caminho. No meio do caminho havia ovos. Não consigo passar por cima de tudo como um trator. Não passei no teste. Desclassificada. 

Se eu pudesse faria como Brás Cubas: jogava tudo no ventilador depois de morta. Mas não há garantias de que terei um computador no além.

Pois é, há coisas que não podemos dizer para não sermos julgados. Mas afinal de contas quem foi que nos ensinou que a vida se resume a promoveremos a nossa própria imagem? Quem nos convenceu de que dedicar tanta energia (ou represar tanta energia) nessa intenção adiantaria alguma coisa? 

Já disse certa vez: a liberdade é imposta pela natureza. Quem é realmente livre tem dificuldade em se livrar dessa sina; faz tudo o que quer, paga caro mas não consegue parar. Não tente ser assim se você não nasceu assim.
Postar um comentário