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22 de jun de 2016

Perdas

Estou aqui considerando que a despensa onde guardamos "os grandes tesouros da nossa juventude" tem um nome. O nome desse compartimento é "ombros". É precisamente lá onde fica armazenado tudo que a juventude pensa ter de mais caro: nos ombros. Garbosamente exposto.

Toda a tranqueira da juventude nos pesa bastante, mas a custamos a perceber. Por exemplo: enxergar bem é uma beleza, mas ver demais pesa. Enxergamos tanto as  nossas imperfeições quanto as expressões faciais alheias, que preferíamos não ter notado. Pesa comparar, pesa buscar incessantemente outros olhos. Então um dia desce a nuvem da velhice e de tudo isso somos aliviados. 

O poderio do corpo saudável também pesa. Porque junto com a beleza e a força vem todas as cobranças possíveis. Você é jovem então pode suportar mais trabalho, mais preocupação, mais decepção, mais exigências, mais dor. Você paga caro todos os dias por ser jovem. A gente tem que pedir perdão ao mundo por isso.  Só quando as forças se vão é que nossas limitações passam a ser respeitadas.

Os velhos têm licença para exercer tranquilamente sua humanidade. Dos jovens exige-se superação eterna.  

A beleza também cansa com todas as suas exigências e acessórios. Porque a beleza não existe simplesmente como uma dádiva, como uma borboleta que vem depois vai embora quando dá vontade. Todos acham que essa borboleta dá atenção ao nosso comando e depende de nós.  A beleza, assim como o dinheiro, são medidas para lhe avaliar. Você vale pela sua capacidade de multiplicá-las ou pelo menos conservá-las. A beleza, tanto quanto o dinheiro, precisa ser gerenciada. O mundo não perdoa o belo fracassado tanto quanto não perdoa quem nasceu rico e morreu pobre. Não há clemência para a beleza desperdiçada - seja lá o que isso signifique.  

Tudo isso é para dizer que as perdas não precisariam ser tão lamentadas. Os ombros ficam livres, tudo se torna mais leve. Tão leve que um dia chega a hora de voar... e aí voamos.
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