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2 de jul de 2016

Inferno

Estive pensando nessa coisa de "ir para o inferno".  Acho que Deus nem precisa ter trabalho com isso. O assassino,  por exemplo,  se condena ao inferno cada vez que elimina uma pessoa melhor do que ele.

As coisas boas do mundo são cultivadas por gente que não faz mal a ninguém.  Mas essas pessoas não matam, elas morrem. São vítimas dos maus. E cada vez que isso acontece mais fundo se torna o inferno para quem fica.

Esses dias mataram uma médica,  uma moça útil e dedicada. Menos uma pessoa para lutar por quem sofre. Agora imagine se pouco a pouco todas as pessoas generosas forem sendo eliminadas.  O que sobra? A resposta está no mini-mundo chamado "presídio". 

Visite um presídio e você verá que o inferno lá dentro são eles mesmos que fazem, não o Estado.  O Estado só lhes tira a liberdade de ir e vir. Toda a opressão a seguir é criada por eles mesmos. Por mais difícil que seja estar preso,  a situação seria muito menos dolorosa se eles mesmos não a piorassem.  Como se não  bastasse o infortúnio de estarem presos, eles ainda se empenham em piorar as coisas e tornar a própria desgraça mais desgraçada ainda.

Um exemplo: li certa vez o relato de um médico - Drauzio Varela - contando que em determinado presidio onde trabalhara nenhum preso podia chorar. Essa desumana proibição partia dos próprios presos! Aí eu penso: que força estranha fazia com que voluntariamente piorassem a vida para si mesmos?!   Negavam a si mesmos um direito humano básico.  Dráuzio relatava como era angustiante para eles não poderem desabafar nunca. Ficavam com aquele aperto opressivo no peito, motivo pelo qual vez por outra pediam permissão para se consultarem. Alegavam alguma doença ou mal estar mas quando chegavam diante do médico simplesmente desabavam. Choravam copiosamente, como crianças só porque precisavam desesperadamente disso e se o fizessem na frente dos outros, sofreriam abusos e punições. É como se os presos dissessem a si mesmos que a pena que a sociedade lhes impôs era branda demais e que mereciam uma penúria maior.  Isso é muito difícil de entender. 
Só o que me parece é que nem Deus nem o diabo precisam se empenhar em castigar ninguém quando ela mesma cava sua ruína.  Uma força maior dentro das próprias pessoas faz com que condenem e castiguem e a si mesmas. Como se tivéssemos dentro de nós um impulso estranho e incontrolável por justiça.

Somos todos muito estranhos. Mas mais estranho ainda vai ficando o mundo cada vez que inofensivos são apagados do mundo e em seu lugar ficam os cruéis, os injustos, os agressivos, os sem afetividade.  Ficará igual ao presídio.
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