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11 de out de 2016

Coca Cola e estrelinhas

Estou eu aqui de peito estufado, satisfeita comigo mesma por não ter desperdiçado meu dia. Cumpri as tarefas propostas por mim mesma e estou cansada. Estou cansada, mas é desses cansaços dos quais a gente se orgulha e faz questão de contar para alguém. Tanto é assim que estou esfregando na cara do mundo a dureza do dia e miinha correspondente virtude.

É o cansaço dos justos. Sim, eu o tenho. Aquele cansaço que se faz muito bem acompanhar por alguma espécie de dor - de preferência nas pernas ou costas. Suponho que a glória seja maior quando alguma coisa dói.  Pois estou dolorida pelos exercícios de ontem, na academia. Não sei se conta ponto mas essas dores bem poderiam ter me impedido de ser útil mas não impediram. Decidido: conta ponto sim.

Observo então meu dia, que coloco diante de mim como quem olha satisfeito os rasgos de sua roupa de guerra.

Claro que esse sentimento exaltado não é para tanto. Não salvei nenhuma vida mas na falta de coisas mais louváveis para me orgulhar congratulo-me pelo meu pouco que não foi tão pouco assim , se não eu não estaria cansada. Se minha labuta não foi das mais gloriosas tenho a dizer que quem vence a preguiça já está no lucro. Vou então tomar banho e depois dormir cheia de estrelinhas no peito. 

Um dos efeitos nefastos de se ter um dia produtivo - sim, há efeitos nefastos! -  é isso: beber Coca Cola. É dar-se ao prazer de transgredir até contra si mesmo só por acharmos que merecemos. A trabalheira seria então uma espécie de compra de indulgência.  Brindo-me com o mal depois de ter feito o bem. Muito estranho isso: jantei, a sede veio. Ao invés do insípido copo d`água ou cansativo suco natural resolvi matar a sede com um copão de Coca Cola. Só porque posso. Só porque tenho moral pra isso.

Poucas coisas são tão loucas e contraditórias quanto as desse tipo:  a capacidade de uma pessoa premiar-se com o mal como se o mal fosse bom. Ou como se uma coisa justificasse a outra. 

A Coca Cola, no caso, é o mal supremo. É o supra-sumo do desmando alimentar. Pois veja: dou-me o direito de fazer esse absurdo só porque fui legal. Posso me comportar mal porque me comportei bem. Desse jeito o certo fica parecendo errado, pois do peso de tê-lo executado  fiz por merecer um prêmio. E o mal passa por bem porque é com ele que me compenso pelo transtorno de ter agido corretamente.

Há algo de errado nesse jogo de compensações cínicas.  Mereço uma reprimenda. Mas quem dirigiria palavras duras a uma guerreira que vai dormir com o peito cheio de estrelinhas?

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