.

.

14 de dez de 2016

O pato da generosidade


Esses dias dei de cara com uma verdade obvia, como obvias são todas as verdades, só que a gente não enxerga. A verdade não se esconde de nós. Nós é que andamos distraídos demais vendo as vitrines e passamos por ela sem perceber.

Me toquei, assim de repente, de que nada é mais libertador do que o cristianismo verdadeiro. Libertador mesmo, no sentido social inclusive.  Uma sociedade que abrace, leve a sério e cultive princípios cristãos é uma sociedade de homens livres que jamais serão escravizados.

Nenhuma pessoa tem o poder de escravizar alguém que seja realmente livre por dentro.  Uma nação de homens espiritualmente livres é uma nação "inescravizável".

Ninguém é livre se estiver preso a paixões, bens, posições. Não tem como! 
Jesus não ensinou esses princípios para que fossemos "bonzinhos e religiosos", mas para que fossemos LIVRES. Não apenas no “sentido espiritual” mas no sentido social, político. No sentido total. Ele estava dando aos judeus o mapa da mina, mas eles não entenderam. Nem nós tampouco.

Por que não derrubamos ditadores? Por que não erradicamos opressores? Por que não tiramos o poder das mãos de quem tem poder? Por que não lutamos? Por que baixamos a cabeça? Por que deixamos que pessoas sejam exploradas? Só por um motivo: porque estamos presos às migalhas que temos. E por que estamos presos a essas migalhas? Porque não sacamos o que Cristo ensinou. Não entendemos, por isso não levamos a sério. 

Jesus nos ensinou o DESPRENDIMENTO, o ALTRUÍSMO. "Ninguém tem maior amor do que esse: de dar a vida pelos seus amigos."   E eu diria que ninguém tem mais poder do que esse sujeito que está disposto a dar a vida pelos seus amigos (seu país).  Quem dá a vida é porque não tem medo de perder mais nada. E quem não tem medo de perder é impossível de ser ameaçado. E sem ameaça não há domínio.  Domínio pressupõe ameaça.

Jesus ensinou que vale a pena dar a vida pelos outros. Quantos acreditam nisso, realmente?  Pois é.  Ele ensinou que isso é poder. O poder de um povo reside no fenômeno do desprendimento, da generosidade. A grade mentira é ensinar que isso seria um sinal de fraqueza. Não é!  Aí está exatamente a força de um povo. É a nossa escravidão interior que possibilita que outros nos escravizem. É o nosso apego às coisas materiais que dá força aos nossos opressores. Quanto mais você tem, menos livre você é. Talvez por isso que o apóstolo Paulo falou (primeira carta aos coríntios, capítulo 7) que "... desejo vos fazer entender é que o tempo se abrevia sobremaneira. De agora em diante, aqueles que têm esposa, vivam como se não tivessem, aqueles que estão tristes, como se não chorassem; os que estão alegres, como se não houvessem alcançado a felicidade; os que podem comprar o que desejam, como se nada possuíssem; os que se beneficiam dos produtos do mundo, como se não tivessem acesso a nada..."    Assim como Jesus ele não pregou a abstinência, mas a liberdade.

“Usem tudo o que for bom, mas como se nada possuíssem. Porque quem não possui, não tem medo de perder e quem não tem medo de perder não tem medo de NADA. E quem não tem medo de nada jamais usará coleira.” 

Estamos todos de coleira nesse Brasil. Tudo porque não entendemos ainda o poder libertador do Evangelho.  

Onde está esse povo generoso , desprendido, sem medo de perder?  Não o temos. Não o somos. Se fôssemos assim o governo perderia todo o poder que tem.   Quem lhes dá poder somos nós, com nossos vícios e ganâncias.   O governo poderia ser desafiado, totalmente despojado. Bastaria que as pessoas não tivessem medo de perder o emprego, de perder a vida, de perder a posição social ou a liberdade em prol de um ideal maior. Mas o que vemos? Vemos todos tentando se preservar. 

Jesus disse que quem quisesse salvar sua vida acabaria por  perde-la mas quem se dispusesse a perder a sua vida, de fato a salvaria.  Nunca isso fez tanto sentido em minha cabeça quanto agora. Isso tudo é muito prático e real e lógico. Por que não entendemos?  No Brasil estamos todos nos perdendo justamente porque estamos todos tentando salvar tudo. Sempre existe alguém traindo um movimento para auferir vantagens junto ao opressor, já notou?  

O Evangelho é libertador porque só a generosidade é capaz de libertar. O libertador às vezes morre. O libertador se machuca. O libertador pode perder tudo. Mas o libertador, por fim, liberta! Nós não temos libertadores porque todos estamos apegados demais ao que temos.

A simples desobediência civil seria suficiente para desmontar todo o governo. Mas esse movimento não acontece simplesmente porque ninguém quer se prejudicar. Todos queremos salvar a própria pele, por isso perdemos até a pele.   Ninguém quer ser o primeiro, ninguém quer ser o mártir, ninguém quer "pagar o pato" . Mas o cristianismo nos ensina justamente a pagarmos o pato. Um  povo de pagadores de pato é um povo livre.

Não, não estou conseguindo expressar a profundidade e a grandeza do que estou percebendo. É IMPOSSÍVEL ESCRAVIZAR E EXPLORAR UMA NAÇÃO COMPOSTA DE PESSOAS GENEROSAS, ALTRUÍSTAS E HONESTAS. Os políticos só fazem conosco o que fazem porque todos amamos o dinheiro.

Quem estiver disposto a perder tudo, descobriu a árvore da vida.

Somos todos escravos hoje. Somos todos sugados. Não precisava ser assim. Eles não teriam tanto poder se nós mesmos não déssemos isso a eles. E o poder deles reside exatamente no nosso egoísmo. Não precisamos nem assassinar o presidente ou explodir bombas em palácios. Basta que não nos movamos quando não quisermos nos mover. Basta que desobedeçamos, que os ignoremos, que nos insurjamos pacificamente. É impossível colocar coleira em um povo assim.

Basta que não tenhamos medo da morte.
Basta que não tenhamos medo de perder tudo por amor à nossa causa e por amor ao nosso próximo.
Basta que abramos mão.
Basta que não baixemos a cabeça.
Basta que levemos o cristianismo a sério. Nenhuma doutrina tem o mesmo poder libertador.

Quanto mais egoístas, mais propensos à escravidão.
Quanto mais "espertos", mais talhados para usar coleira.
Quanto mais generosos, mais livres.
Isso não é pieguice; é ESTRATÉGIA!



Postar um comentário