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5 de dez de 2016

Pulcrícomo e outros mais

Pulcrícomo é um cara que tem uma formosa cabeleira. Você já ouviu alguém ser chamado de pulcrícomo? Nem eu. Ninguém precisa disso. Ninguém precisa dessa palavra. Ninguém precisa do que não precisa.

Já está na hora de começarmos a bolar como será nosso próximo ano. Poderíamos iniciar nossa lista de intenções com a decisão de nos livrarmos de toda sorte de pesos inúteis. Minha sugestão aqui é que comecemos pelo dicionário.

Nada como um dicionário fininho, esguio e dobrável como o corpo de um atleta.  Porque não considerarmos inexistente, daqui por diante, todas as palavras-tranqueiras?

Assim como uma mente enrolada enrola tudo, uma mente prática e reta descomplica tudo.

Há palavras que, se um dia foram utilizadas, esse dia se perdeu na poeira do passado. Essas palavras estão lá, enfileiradas e caquéticas fazendo número e gastando o sei-lá-o-quê do que são feitas.  Agora diante dos meus olhos vejo esse aglomerado de "seres" no limbo, no porão esquecido da nossa comunicação. Estão lá em estado caquético, há décadas sem ver a luz do sol e sem notícias do mundo exterior. Aglomeram-se diante de qualquer fresta de sol ansiosas para serem acionadas por algum professor de Português ou poeta mofado. Pobres palavras semimortas... Matemo-las.

Deveriam existir funerais periódicos para as palavras. Uma espécie de eutanásia. Já bolei uma cerimônia simples, talvez na Academia Brasileira de Letras. Os homens usariam terno e gravata e as mulheres qualquer coisa que combinasse com isso. Tudo não levaria mais que trinta ou quarenta minutos. As honras e despedidas seriam dadas a todas as palavras palavras aposentadas (esquecidas, ou impraticáveis, impronunciáveis, envelhecidas, inúteis, ridículas ou ... chamem como quiserem). Os imortais se despediriam dessas palavras mortas não sem antes louvar-lhes o poder expressivo existente em sua juventude ou a sonoridade agradável (se é que um dia a tiveram). Lamentariam o seu desuso chamando a atual sociedade de simplista, sem afeição pelo rebuscado.  O adeus viria não sem antes protestarem  as mentes ralas da atualidade. Quem sabe um singelo poema poderia ser composto servindo-se dessas tristes palavras pela última vez?  Seria o momento tocante da cerimônia. E quando o celebrante pronunciasse cada uma delas pela derradeira vez, uma vela seria apagada.  Uma vela para cada palavra falecida. Coquetel ao final da cerimônia? Acho que sim.

Depois disso elas seriam excluídas das próximas edições dos dicionários. Qualquer gaiato que resolvesse utilizá-las dali por diante perderia ponto na redação.

Pois é...   Quem me conhece sabe que tenho o cacoete emocional de atribuir personalidade aos seres inanimados. É o que estou fazendo agora, precisamente.

Acho que todos nós seríamos mais felizes com um dicionário mais fino, pois ele seria a promessa silenciosa de descomplicações futuras.  Por exemplo:

1- "Ficante" que você não vai usar mais, que não deu certo, que não dá futuro: pra quê ocupar lugar na agenda telefônica?
2- Pessoas que não foram legais, que nunca tem tempo pra você ou que sumiram do mapa e você nem sabe se ainda estão vivas.  Corta!
3- Sonhos sem cabimento?  Jogue fora.
4- Más poesias que você compôs no passado e hoje morre de vergonha de que alguém leia? Delete.
5- Mágoa e traumas já comentados, trabalhados, analisados, desabafados e chorados? Chegaaaaa!

Ano novo vem aí, gente. Bora refrescar o armário.
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